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Zootecnista, versatilidade que faz a diferença


Publicado em: 13/05/2019 07:30 | Fonte/Agência: CFMV | Categoria: Geral

 


“Decidi fazer Zootecnia porque entendi que ela ia me ensinar a ser um agente de transformação”. Assim o zootecnista Antonio Chaker El-Memari Neto define a profissão, que comemora seu dia em 13 de maio. A celebração marca a fundação, 53 anos atrás, do primeiro curso de Zootecnia do país, na PUC de Uruguaiana (RS).

Neste ano, o Sistema CFMV/CRMVs homenageia esses profissionais versáteis, contando histórias de sucesso de zootecnistas que atuam nos seguintes eixos: bem-estar animal; certificação e auditoria; gestão e produtividade; melhoramento genético; mercado pet; ovinocultura e sustentabilidade.

No primeiro capítulo, Chaker fala sobre gestão e produtividade. Mestre em produção animal pela Universidade Estadual de Maringá (UEM), no Paraná, há 17 anos atua em projetos de gestão agropecuária, com foco na ampliação de gerenciabilidade e lucro de fazendas. Ele também é fundador do Instituto Inttegra, que monitora 420 fazendas no Brasil, Paraguai e Bolívia, e autor do livro Como ganhar dinheiro na pecuária. Os segredos da gestão descomplicada.

Por que escolheu a zootecnia?

Prestei vestibular no início dos anos 90, quando a zootecnia, apesar de já ter uma história, era recente em comparação à imagem que temos hoje. Eu sempre gostei muito de administração, produção e, naturalmente, escolhi fazer vestibular para administração. Até que um tio, que era produtor, me disse: “Você já pensou em fazer Zootecnia? Ela é a área que ajuda a aumentar a produção da fazenda”. E eu pensei: então é isso. Fui para Maringá (PR) fazer o vestibular e fiquei em uma república de estudantes de Zootecnia. Ali tive a oportunidade de conversar com eles e entendi que aquela era a profissão da minha vida. Entrar dentro de uma fazenda e garantir que ela fique melhor, que ela produza mais e ganhe mais dinheiro. Decidi fazer Zootecnia porque entendi que ela ia me ensinar a ser um agente de transformação.

Quando escolheu a Zootecnia, queria trabalhar com o que?

Durante o processo da faculdade, eu naveguei por diversas áreas. Estagiei em suinocultura, caprinocultura até a bovinocultura, que de todas as áreas foi a mais apaixonante. Havia uma tendência a gostar de fazenda, sou filho de produtor, então eu tinha essa preferência pela pecuária de corte. Quando me formei, trabalhei em uma fazenda no Mato Grosso do Sul e entendi que a profissão de zootecnista era muito poderosa. Eu já tinha uma predisposição pela pecuária e, aquele momento foi um gatilho para seguir carreira dentro da atividade, que foi evoluindo para gestão da pecuária e a gestão agropecuária, área em que cuidamos também da agricultura.

Pode falar um pouco mais sobre o seu trabalho e a sua trajetória profissional?

Eu sou formado pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). Logo que me formei, fui trabalhar em uma fazenda no Mato Grosso do Sul e fiquei lá por quase três anos. Morei na fazenda, entendi o sistema e percebi que eu precisava de mais. Então voltei a Maringá para fazer mestrado. Estudar depois de uma temporada no campo foi muito poderoso. O mestrado me ensinou a ler, a escrever, a falar em público. Durante esse processo, surgiram algumas demandas de consultoria. Naturalmente, finalizado o mestrado, potencializei essas demandas, não apenas na área de gestão, mas também na de produção. Junto com o professor Antonio Ferriani Branco fundei, em 2002, a Terra Desenvolvimento (empresa de consultoria), onde permaneci até 2015. Depois, decidi me concentrar no método Métricas Gerenciais e criei o Instituto Inttegra. Algumas empresas de consultoria, como a Terra Desenvolvimento, se tornaram franqueadas do Instituto. Hoje são oito empresas franqueadas, todas com zootecnistas, e atendemos 420 fazendas. Temos quase 60 pessoas no campo vindas dessas empresas. Assim, segui uma trajetória de graduação, fazenda, mestrado, consultoria e franqueadora.

Qual a importância da Zootecnia e como ela faz e pode fazer a diferença?

Eu sempre falo que a gente precisa navegar nas posições proximal e distal, ou seja, ver de perto e ver de longe. A Zootecnia foi fundamental para que eu pudesse ter entendimento do processo, que é proximal e inclui o sistema de produção, a nutrição e o manejo de pastagens; e a visão distal, que é a visão da interação de todos esses fatores, a visão do todo. As pessoas me perguntam: “Você trabalha com gestão, por que não fez Administração?”. Eu respondo que qualquer gestor do processo agropecuário só vai conseguir ter uma excelente eficiência se dominar o sistema de produção, que é técnico. Por isso se veem muitos técnicos operando com gestão, mas você não vê especialistas em gestão trabalhando diretamente na agropecuária. Quando eu falo diretamente é na produção, na fazenda. Por quê? A operação do dia a dia da fazenda é fundamental para que você possa tomar as melhores decisões gerenciais. Essa é a grande vantagem da Zootecnia. Pelo fato de oferecer tanto a visão proximal quanto a distal, ela nos permite navegar em todos as áreas, pois conecta todos os aspectos da produção. É interessante quando você percebe os cargos de liderança nas fazendas, nas indústrias e, muitas vezes, em cooperativas de produção. É muito comum ter o zootecnista liderando esses processos. Isso explica também o tipo de formação e talvez o tipo de profissional que a Zootecnia atrai: pessoas que têm uma visão produtiva, de desenvolvimento, de crescimento. Por isso elas acabam liderando as operações agropecuárias.

Como avalia a Zootecnia no Brasil? Aponta alguns caminhos que poderíamos seguir?

A Zootecnia, hoje, tem sido fundamental para a transformação que o Brasil vive no setor agropecuário. (Sinto) Uma gratidão muito grande à Zootecnia, às academias, aos institutos de pesquisa, à iniciativa privada. Acredito que ela deve continuar crescendo e atualizada, com novas frentes. É muito legal perceber as principais universidades do país olhando para esse caminho, por exemplo, o zootecnista caminhando para a pecuária de precisão, big data, machine learning e automação.

Você acredita que a Zootecnia vem como opção de formação para a área tecnológica?

Temos a Zootecnia como a principal formação no caminho da área tecnológica, no que diz respeito à coleta, análise e processamento de dados, entregando cada dia mais informação. A evolução da profissão segue por um desses caminhos. Em conjunto a isso, ela também avança numa segunda vertente, que é o aspecto de desenvolvimento humano, na qual o zootecnista é um agente de transformação. Ele passa a dominar os aspectos de gestão de recursos humanos, entendendo as ferramentas para que isso ocorra. São ferramentas de desenvolvimento de equipe, que estabelecem processos de feedback e entregam a um líder a condição para exercer o seu papel. Temos então o analista técnico (big data, automação) e o gestor de pessoas. E, em um terceiro eixo, temos os aspectos de gestão em si. Esses são os fundamentos para se estabelecer um plano estratégico plurianual, definir metas, construir um processo de gestão de produção completamente integrado, para que seja possível respeitar o meio ambiente, produzir mais com menos, preservar o contexto da felicidade humana, respeitando naturalmente os animais. Então são três aspectos: tecnológico, humano e de gestão. Claro que nunca deixando de lado a nossa essência, que é a da produção animal, da produtividade, do conhecimento profundo das diversas áreas técnicas em que atuamos.

Quais dicas você daria para quem está começando?

A principal dica é reconhecer que um profissional, principalmente recém-formado, tem que se entender como um agente de transformação. Eu brinco que você não é só um zootecnista, você é um zootecnista transformador. Ou seja, esse jovem que está iniciando a carreira deve trabalhar com toda a sua energia para quando entrar em um processo de produção, em uma fazenda, indústria ou cooperativa, qualquer ambiente onde atuar, entre com um olhar de ruptura, de “o que vou promover de mudança, o que é necessário fazer agora”. Todo início de carreira exige um pouco mais de resiliência, superação e paciência. É importante saber que o início vai exigir que ele trabalhe umas horas a mais, e que ele possa conquistar o seu espaço mostrando como realmente pode fazer a diferença naquela corporação. Foi assim com 100% das pessoas que eu conheci e que realmente queriam fazer. Elas não tinham experiência, mas tinham vontade. Eu costumo dizer que a Zootecnia dá a faca e o queijo, mas a fome deve vir do zootecnista. A América do Sul precisa muito do zootecnista. Temos ainda níveis baixos de produtividade e de margem, apesar de termos evoluído muito nos últimos anos. Nunca houve tanta oportunidade para o zootecnista transformador como temos agora. Então, essa fome, essas horinhas a mais e essa capacidade de ser um agente de mudança, de não se conformar com o status quo são a grande dica para quem está começando.

Você escreveu o livro “Como ganhar dinheiro na pecuária. Os segredos da gestão descomplicada”. Pode falar um pouco sobre a ideia do livro e se essa é uma realidade no cenário brasileiro?

O livro era uma ideia antiga, que eu protelava em razão de outros compromissos. Até que o Fábio Dias, zootecnista inspirador da minha geração, me incentivou, falou: “Vai, escreve, eu te apoio”. E com esse incentivo eu pensei que a gente já trabalha há 20 anos nisso, já tem um método de trabalho. O livro é uma documentação bem-humorada, detalhada e informal, mas com todos os processos que uma fazenda deve realizar para ganhar mais dinheiro. O livro segue o nosso aprendizado, nesses anos em que trabalhamos impactando mais de mil propriedades, mostrando o que funcionou ou não, ao longo desses anos, com passo a passo, contas, etapas, problemas que podem surgir. Para um leitor, que mesmo que não seja técnico, entenda que sempre existe um processo. Não existe um caminho fácil ou curto. Você segue um ritual: primeiro descubro onde estou, depois estabeleço onde quero chegar e, estando lá, que elementos devo respeitar; executo, respeitando as características da execução, faço então uma análise de risco, entendo qual equipe vai executar e realizo o controle. É um processo de gerenciamento muito aplicado, que faz com que as fazendas entreguem melhores resultados. Hoje, mais de 93% das propriedades que utilizam esse processo aperfeiçoaram resultados econômicos e financeiros. A ideia do livro é também dar acesso às pessoas que não têm condições de contratar uma consultoria. Fui porta-voz de um grupo de consultores que já utilizam esse método.

O que o Brasil tem como exemplo que pode levar para o mundo? O que fazemos aqui que dá certo?

O Brasil tem uma grande diferença dos outros países: é enorme em dimensões e no potencial. Aqui a gente tem solo, água e gente. Temos muita coisa boa desenvolvida dentro dos nossos sistemas de produção, e acredito que o Brasil pode levar isso para o mundo. Por exemplo, acho difícil encontrar alguém que saiba manejar pastagem tropical melhor. Apesar de esse tema ainda ser um desafio, muitos produtores, técnicos e consultores o dominam. A suplementação a pasto também é algo muito especial aqui. Em algumas técnicas de determinação intensiva a pasto, mais uma vez, também somos craques e podemos ensinar ao mundo. Em tudo o que envolve tecnologia de produção baseada em ambiente pastoril, de alto nível de produtividade e alta qualidade, somos imbatíveis.

E o que funciona em outros países que o Brasil poderia estudar e aplicar?

O que podemos aprender é uma disciplina produtiva, uma rigidez que acredito gerar oportunidades que os países mais desenvolvidos têm. Existe algo que, para nós, está chegando agora, que é o fazer mais com menos. A Europa, por exemplo, já passou pela fase de altíssima produtividade e agora passa pela etapa de otimizar o uso de recursos. O Brasil respeita muito o meio ambiente, temos muito mais reservas que a maioria dos países e, apesar de toda a pressão, quando você analisa qualquer número, a gente tem muito a ensinar para o mundo. Mas, naturalmente, os países desenvolvidos podem nos ajudar a ter um melhor uso dos recursos, dos insumos, que é realmente produzir mais com menos, com maior qualidade, é produzir alimento funcional e, especialmente, a comercialização, onde sabemos que podemos evoluir. Nosso produto tem melhorado muito, mas o preço médio, principalmente da carne, fica aquém de outros países. Nosso grande aprendizado é conseguir comercializar melhor os nossos produtos, que já têm qualidade.

Você fala da Zootecnia com muita paixão. Como isso se mantém, depois de tanto tempo?

Sobre a Zootecnia tenho uma palavra: gratidão. Sou apaixonado, quase todos os zootecnistas que conheço, também. Tenho gratidão por tudo o que a Zootecnia me entregou. Venho de ensino público, graduação e mestrado, e tenho muita gratidão ao que tive e vivi. A todos que cursaram Zootecnia, acho que é uma obrigação devolver um pouco do que aprendemos na carreira a quem está começando. Voltar à universidade, conversar com os recém-formados e, se possível, gerar emprego ao zootecnista. É uma missão. A Zootecnia deixou de ser uma profissão e virou um propósito de vida para mim, um propósito de carreira, o que me traz significado para acordar todo dia, cada dia mais cedo, e fazer cada vez mais.


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