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Revista CRMV-PR

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Artigo

Gestantes, seus gatos e a toxoplasmose

11/Mai/2007


A toxoplasmose é uma enfermidade cosmopolita, causada pelo protozoário Toxoplasma gondii, capaz de parasitar animais de sangue quente, em sua maioria servindo como hospedeiros intermediários do parasita. O que implica ao gato um papel de destaque é o fato dos felídeos serem hospedeiros definitivos do agente, portanto, fundamentais para que o ciclo se mantenha. O que procuraremos mostrar a seguir, é que provavelmente não é o seu gato que contamina você, mas sim (indiretamente) as fezes de qualquer gato.

Existem muitas maneiras de se entrar em contato com o Toxoplasma gondii e adquirir a doença, dentre elas o consumo de carne crua ou mal cozida, ingestão de furtas, verduras e legumes mal cozidos, e ainda o contato direto com a terra, em procedimentos de jardinagem, por exemplo; o contato direto estrito com os gatos não aumenta determinantemente este risco. O hábito alimentar dos gatos das cidades vem sendo gradativamente trocado da carne crua (fornecida ou caçada) para alimentos industrializados, como as rações. Além disso, o contato direto de gatos com a terra possivelmente contaminada também vem sendo reduzido, o que reduz circunstancialmente a possibilidade de infecção de novos gatos, limitando assim o ciclo do parasita e a disseminação desta zoonose em nosso meio.

Estudo recente baseado no programa Mãe Curitibana apontou que cerca de 45% das mulheres gestantes em Curitiba são soropositivas para o Toxoplasma gondii, maior que a prevalência em São Paulo (32,4%) e em Salvador (42,0%), mas menor do que em Porto Alegre (54,3%), Recife (69,4%) e Rio de Janeiro (77,1%). Embora uma menor prevalência signifique menor contato com o agente, também significa maior exposição potencial de grávidas a primo-infecção e conseqüente transmissão congênita. Outro estudo também recente mostrou que a soroprevalência da toxoplasmose em gatos, incluindo gatos errantes, é em torno de 17% na região metropolitana de Curitiba, semelhante ao encontrado no restante do Paraná (19,4%), Niterói-RJ (19,5%) e São Paulo-SP (11,8 a 23,6%).

Mas se a prevalência de gatos contaminados é relativamente mais baixa, por que temos tantas grávidas positivas? Na verdade, embora o gato elimine os oocistos (formas infectantes) por apenas 15 dias durante uma única vez em sua vida, quando primo-infectados com o Toxoplasma gondii, estes oocistos liberados no ambiente podem permanecer no solo por meses ou até anos em condições favoráveis de umidade, temperatura e incidência solar, podendo contaminar as mais variadas espécies animais.

Deste modo fica fácil observar que o provável gato transmissor da toxoplasmose a estas mulheres e população em geral, não é o gato delas, mas sim um gato que deve morar junto às granjas e plantações de hortaliças que elas consomem. E claro que este gato não as contaminou diretamente pelas fezes, mas sim indiretamente por contaminação dos animais de produção (suínos, ovinos, caprinos e coelhos) ou ainda por legumes, frutas, verduras, leite ou água contaminados. Não por acaso, vários estudos mostram que o fator de risco para a infecção de gestantes é o consumo de carne inadequadamente cozida, que contribui em 30% a 63% dos casos; outras como solo contaminado contribuem com 6% a 17%, e o risco de se adquirir toxoplasmose através do contato direto com gatos é extremamente improvável devido às características de eliminação do agente. A possibilidade de transmissão para seres humanos pelo simples ato de tocar ou acariciar um gato, ou até mesmo através de arranhões e mordidas, é considerada mínima ou inexistente. Ou seja, não se previne toxoplasmose congênita eliminando o gato uma mulher grávida, mas sim com cuidados higiênicos adequados na ingestão dos alimentos e com bons hábitos de higiene pessoal.

O uso de luvas e pazinha para a coleta diária das fezes dos gatos, a adequada lavagem das caixas de areia e das mãos são medidas simples, suficientemente eficazes para não se entrar em contato com o agente da toxoplasmose, uma vez que os oocistos, quando eliminados pelas fezes, necessitam de dois a cinco dias para esporular e se tornar infectantes, e permanecerem como tal por períodos de anos.

Todo cuidado é pouco na prevenção da toxoplasmose. Em geral, pessoas e animais portadores do agente são assintomáticos, exceto em pacientes imunocomprometidos, mulheres grávidas e seus fetos, estes últimos vítimas da toxoplasmose congênita. A toxoplasmose humana é ainda a causa mais freqüente de uveíte posterior e sua manifestação mais comum é a coriorretinite, com grave lesão da retina e conseqüentemente, causa de perda irreversível da visão.

Por isso é importante que todas as mulheres sejam testadas no exame pré-natal, e o teste seja realizado e interpretado tanto para infecção aguda (IgM) como crônica (IgG). Os gatos raramente apresentam sintomatologia clínica, isto é, podem ser portadores assintomáticos e devem ser testados periodicamente; lembre-se de que os kits sorológicos para os gatos são espécie-específicos (em sua maioria IgG) e, portanto, kits humanos não funcionam para amostras de gatos. 

Como medidas preventivas, recomende sempre o consumo de carnes cozidas pelo menos a 66 ̊C e carnes cruas apenas quando pré-congeladas a -20 ̊, frutas, verduras e legumes bem lavados e mergulhados em solução 1:1000 de hipoclorito de sódio, manter diariamente a higiene das caixas de areia dos gatos e incinerar os dejetos, oferecer aos gatos somente alimentos comerciais ou pré-cozidos, manter granjas, baias e  local de armazenamento de ração sem a presença de gatos errantes, impedir o controle de roedores pelos gatos, telar parquinhos e praças municipais e escolares, para evitar o acesso de gatos errantes, manter hortas devidamente cercadas e sempre usar luvas para jardinagem.

Concluindo, o contato de gestantes com o Toxoplasma gondii e conseqüente infecção está certamente relacionada aos hábitos de higiene e alimentação, e não no contato direto do proprietário com seus gatos. Portanto, não há o menor sentido em se recomendar a uma mulher grávida que livre-se do seu gato para evitar a toxoplasmose congênita. O ideal seria realizar a sorologia pré-natal da proprietária e o exame sorológico de seus gatos, interpretando o resultado e possível risco da convivência entre ambos, para então serem tomadas precauções inteligentes, que não afetem a interrelação homem-animal que é sempre saudável em qualquer fase da vida.

Por: Marúcia de Andrade Cruz , médica veterinária, mestranda em Ciências Veterinárias UFPR,Juliano Leônidas Hoffmann , médico veterinário, mestrando em Doenças Tropicais UNESP, Botucatu / SP.,Patrícia Yukiko Montaño, acadêmica do Curso de Medicina Veterinária UFPR., Alexander Welker Biondo, médico veterinário, professor Adjunto de Zoonoses, Departamento de Medicina Veterinária, UFPR.




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